o ponteiro do relógio da existência

o ponteiro do relógio da existência
cansou de ser apenas ponteiro
– queria ser o tempo, ele próprio.

(Pois o tempo é dimensão,
e a técnica de medi-lo é outra estória)

o tempo que passa e é percebido pelo ponteiro do relógio
é quiçá apenas comparação espacial de percepção neuronal.

mas o tempo, ele próprio,
se pauta pela angústia,
pela decadência das sociedades,
pela diferentes dores que sofrem os animais humanos e não humanos
e pela morbidez dos átomos que compõem qualquer matéria

A existência é única e comungada.
– a existência humana, dos ratos,
dos macacos, dos vermes e das bactérias –
todas elas uma só.

A milhões de anos-luz, a direita ou esquerda da terra,
sistemas conscientes talvez vivos ou não vivos
também questionam-se sobre diferentes
prováveis sistemas conscientes vivos ou não vivos.

Talvez providos de capacidade neuronal superior,
entendem o tempo metafísico como sendo físico –
e nele se deslocam através de máquinas
movidas a angústia ou qualquer outro metafisicismo.

e vislumbram a decadência dos diferentes povos
do nosso planeta e de muitos outros,
da espécie humana e das baratas.

(31/05/2015)

 

Não à toa as sombras me fascinam

Não à toa as sombras me fascinam:
sou a silhueta do vazio a projetar-se no abismo.

Sinto a ânsia pelo impossível,
transbordo a essência efervescente do absurdo
e esgueiro-me dos olhares pelos centros urbanos
evitando inutilmente o mal-estar de perceber-se humano.

(Não olhe nos meus olhos,
pois o mais breve e banal movimento de músculos extraoculares
é capaz de desmascarar minha essência corrompida
e comunicar ao mundo minha grande farsa)

Sou o espaço vazio a eleger-se matéria,
um obstáculo material às próprias inquietações,
uma existência precária que insiste em desejar
as narrativas impossíveis confabuladas pela civilização humana
sem que exista premissa metafísica que ofereça alento à ausência de sentido para os longos dias de suplício.

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E quando ao acaso por aí me encontrar,
poupe-me do terror das palavras cordiais,
poupe-me dos olhares condescendentes,
poupe-me do bom-dia mal ensaiado,
e não questione sobre conquistas passadas ou futuras,
pois seguirei a frustar e chorar.

nem por isso o mundo parou

certamente nunca te contaram,
mas felicidade é tristeza com propósito
e tristeza é entender a mecânica da vida
e notar a grande náusea dos dias marginais.

tristeza é rascunho em branco,
com sentimentos a preencher

felicidade é preenchimento automático
ditado por ideais alheios, nunca os seus

observe: não estou a defender nenhuma causa,
mas sabes que os meio-sorrisos dos dias cinzas
contêm mais metafísica que os sorrisos abertos de euforia

e caso esteja pensando em apontar um paradoxo,
o paradoxo também te aponta,
e nem por isso o mundo parou
ou deixou de ter propósito
– ainda que triste.

eu não sei sorrir

eu não sei sorrir
mas eu sorrio
quando na rua me perguntam as horas
quando os carros param na faixa e eu atravesso
quando na padaria perguntam se quero mais algo

eu não sou feliz
mas há instantes em que posso jurar
que um poeta vai me convencer
que existe um sentido intrínseco nas coisas
e que essa equação se fechará sozinha

(15/10/2018)

repare que a vida é memória, e memórias são mentiras

repare que a vida é memória,
e memórias são mentiras
contadas por nós mesmos,
na esperança de um sentido
para a anarquia da vida

repare que não há alma ou um pós-vida,
que a existência é um desvio padronizado
de átomos leigos e ineptos,
ignorantes de si – pois não há um si –

repare que, como a vida, ao fim dos dias não há luz,
como ao fim do túnel nas parábolas urbanas.

somos matéria e nada além
e a metafísica é um jogo
de distração e esquizofrenia
que jogamos sozinhos em conjunto

a porta e as dobradiças

observando a porta do meu quarto, percebi que suas dobradiças estavam enferrujadas por tantos anos terem passado sem que nenhum corpo ousasse tocá-la.

mas um dia a porta ainda seria aberta,
suas dobradiças dobrariam
a ferrugem dobraria
a porta dobraria
a maçaneta dobraria

alguém entraria

e verificaria
__________meu corpo já gelado
_______________observando as dobradiças
____________________da porta que abriria

na data do meu velório

Quando na data do meu velório houver a marcha onde caminham até minha cova, enfim estarei em paz. Por nunca mais precisar ouvir a voz humana, nada jamais voltará a atormentar meu espírito.

Aqueles que forem vestidos de preto acompanhar o sepultamento do meu cadáver serão os últimos a prestar desonra e a me causar angústias. Isto, pois não há verdade alguma em rituais milenares, e pouco me interessa a metafísica a qual eles se agarram. A pura construção dos ritos de luto me causa enjoo e vômito – no dia seguinte à minha morte, a vida seguirá com as mesmas vozes igualmente inúteis.

Quando minha única companhia for aquela oferecida pelos vermes dentro do caixão, estes saberão que a carne que comem é carne e nada mais. Ao contrário do que os medíocres sempre tentaram me fazer acreditar, nunca cri em metafísica que justificasse a essência superior de qualquer matéria sobre outra. A essência das coisas nunca teve seu valor definido pelo quanto sua definição é repetida pelas sociedades humanas e suas crenças perfunctórias.

Quando na data do meu velório houver a marcha onde caminham até minha cova, enfim estarei em paz.

(01/09/2015, 17:12)

Os seres existem, se esbarram e vão ao trabalho.

Os seres existem, se esbarram e vão ao trabalho.

Pois o que é mais,
o que sorri,
o que pensa,
este não é o ser,
este é o bêbado com seu cigarro.

E é por isso que eu sei,
que o humano nasce bêbado
e a metafísica é a ressaca.

Os seres existem, fumam ópio e suicidam.

(19/05/2013)